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Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

Letra de Forma

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Idomeneo e a Europa remixed - I

 

 

 

 

 

 

Composto em 1781, o Idomeneo representa a diversos títulos uma emancipação. No modelo e nos códigos da "ópera seria", Mozart compunha um drama de uma intensidade incomparável. Drama de pai e filho também, e drama cujo passos de composição conhecemos em detalhe inédito, pela correspondência entre o filho, Wolfgang, preparando em Munique a estreia da sua obra, e o pai, Leopold, que ficara em Salzburgo. Em breve, e propulsado pelo sucesso da obra e pela acrescida confiança nas suas capacidades, Wolfgang Amadeus daria o passo decisivo, contra o aviso paterno, e emancipar-se-ia de Salzburgo e da tutela do príncipe-arcebispo. Idomeneo é algo como uma "cena primitiva" da dramaturgia mozartiana.
 
Afirmação dramática de um compositor, o Idomeneo é também uma obra que assinala o cruzamento e síntese de estéticas e um mais geral quadro cultural. Desde finais do século XVIII, e ao longo do século XVIII, esse “extravagante” género que era a ópera foi um dos modos de contituição da Europa, enquanto entidade e mesmo comunidade cultural de reconhecimento. O domínio, ou melhor ditto, a hegemonia da ópera italiana, estendeu-se de São Petersburgo a Lisboa, com raras excepções: a Inglaterra, onde apesar do expatriado Haendel, nunca verdadeiramente triunfou, e sobretudo a França, onde se constituíu um género próprio, a “tragédie lyrique”, incorporando os influxos da tragédia teatral e do “ballet de cour”, este de tal modo importante que houve mesmo um subgénero que designamos por “opéra-ballet”, de que o paradigma é precisamente uma obra que tem o continente, ou a noção cultural, inscrita no próprio título, L’Europe Galante de Campra (1697).
 
Nos últimos trinta anos do século XVIII; quando o núcleo hegemónico se começava a deslocar de Itália para o conjunto austro-alemão, as correntes de influências tornaram-se particularmente salientes, e disso o Idomeneo é exemplo privilegiado. Mozart tinha já escrito as suas obras milanesas, Mitridate, Re di Ponto, e Lucio Silla, isto é, afirmara-se já na “ópera séria” – e a ópera era, antes do mais, a “ópera séria”. Escrito para Munique, o Idomeneo conjugava esse paradigma com o modelo que vinha da “tragédie lyrique”, pois que o libretto era adaptado do que Danchet escrevera para o Idomenée (1712), precisamente de Campra, com um extenso bailado, mas também, frise-se, com características trágicas que, apesar do lieto fine das convenções (o happy end, como hoje diríamos), são aproximáveis de Racine.
 
Mas, mais ainda: uma das razões fundamentais pelas quais a obra representa uma emancipação residiu na escrita para a orquestra de Mannheim (transferida para Munique na sequência da entronização do Eleitor Palatino como Rei da Baviera), uma das bases do futuramente considerado “classicismo vienense”, bem como na influência difusa da “reforma” de Gluck, de que os maiores exemplos, pese ainda o famoso Orfeo ed Euridice, são Ifigénia em Tauride e Alceste, “tragédies” escritas já em Paris.