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Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

"Estética" do maoísmo

 

 

 

 

Por uma perturbante coincidência (não sei se fortuita) a programação de amanhã à noite da Cinemateca é ocupado com dois filmes eminentemente totalitários, e como poucos, o nazi O Triunfo da Vontade de Leni Riefensthal e o maoísta O Oriente é Vermelho.
 
A título de curiosidade, se é que de “curiosidade” se pode falar em tão sinistros casos, o acento coloca-se no maoísta. A bandeira vermelha, as estrelas e a efígie de Mao Tse-Tung são o que resta dessa iconografia maoísta, e, para quem não tem memória desses anos, é mesmo difícil de imaginar o culto demencial que era prestado a Oriente é Vermelho e a esse outro bailado “revolucionário”, O Destacamento Feminino Vermelho.
 
Mas a erosão dessas imagens não supõem necessariamente o esbatimento da lógica dogmático dos que foram seus cultores. Um antigo “esquerdista”, mas de outra orientação, o dirigente Verde e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros alemão Joschka Fischer recordava recentemente na Universidade de Columbia em Nova Iorque como tinha reencontrado um aproximável primado da ideologia sobre a realidade nos emissários da administração Bush, “nos Wolfowitz, Perle, em todos esses neoconservadores reencontrei esse tipo de convicção pela qual a realidade não é um argumento – os neoconservadores tinham uma visão quase leninista: queriam expandir a democracia na ponta do fusil exactamente como os bolchevistas queriam fazer a revolução proletária”.
 
 
Como bem sabemos, em Portugal os mais eminentes neoconservadores, Pacheco Pereira, José Manuel Fernandes, João Carlos Espada, são ex-marxistas-leninitas-maoístas.
 
Leia-se no texto abaixo de Jean Birnbaum sobre Alain Badiou como “Os ex-maoístas conservaram muitos traços comuns, em primeiro lugar a certeza que que o combate intelectual intelectual é o único que verdadeiramente conta, e depois a consciência que tal como as outras, esta batalha não se trava de luvas brancas, enfim, uma relação terrorista com a linguagem, determinado pelo ódio do compromisso, votada à intimidação dos outros”. Lesse essa análise e nela ainda são reconhecíveis Fernandes ou Pacheco.
 
 
Recordar O Oriente é Vermelho ou O Destacamento Feminino Vermelho é pois também ter presente, sobretudo no caso de Pacheco Pereira, no seu perene ódio da arte e da criatividade actuais, o que foi a “educação estético-política” dos maoístas reconvertidos em chantagistas neoconservadores.