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Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

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"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

Herbie Hancock - I

 

 

 

 

Herbie Hancock
River – the Joni Letters
Verve/Universal
 
Um famoso tema de Herbie Hancock é “Chameleon”. Sem também ser exactamente um “camaleão” ou um músico de repetidas reinvenções, como Miles Davis (junto de quem se celebrizou no famoso quinteto dos anos 60), Hancock é frequentemente inesperado, mas poucas vezes o foi tanto como neste seu mais recente disco River – the Joni Letters, uma homenagem a Joni Mitchel.
 
Apesar de tudo, é substancialmente diferente abordar temas de Gershwin, retomar em jeito de “standards” alguns famosos temas pop ou mesmo fazer apelo a um cantor como Sting, tudo possibilidades exploradas noutros trabalhos, e abordar o exemplo peculiar da cantora/autora canadiana – o subtítulo “the Joni Letters” logo indicia uma atenção à escrita dos textos que não existia nos trabalhos anteriores, e essa foi explicitamente uma das motivações de Hancock.
 
Em nota, o pianista e Larry Klein, co-produtor do disco (e de resto ex-acompanhador e ex-marido da cantora), agradecem a Joni Mitchell nomeadamente “for showing us what artistic commitment means”“artistic commitment” ou até tão “commitment” num mais sentido cívico, eis uma característica marcante do disco.
 
Mas Hancock surpreende quer nalgumas das escolhas que não se esperariam num disco seu (Tina Turner cantando “Edith and the Kingpin”, Leonard Cohen dizendo o texto de “The Jungle Line” – embora infelizmente também Norah Jones), quer por ter feito de novo apelo para tão inesperado projecto a velhos companheiros como Wayne Shorter e Dave Holland, ao lado dos novos, e nesse sentido também não-esperados, Lionel Loueke em guitarra e Vinnie Colaiuta em bateria.
 
Se o disco recria o espírito melancólico das canções de Mitchell – e a própria canta a emblemática “Tea Leaf Prophecy” – não deixa de surpreender o balanço entre os temas cantados (por Mitchell, Jones, uma notável Tina Turner, Corinne Bailey Rae e Luciana Souza– além da voz de Cohen) e os instrumentais, e nestes entre a opção pela versão instrumental (a melhor recriação de todo o disco, e o mais notável momento em termos, digamos, propriamente “jazzísticos”) da mais famosa canção de Joni Mitchell, “Both Sides Now”, e um “clássico” de Wayne Shorter como “Nefertiti”. Dir-se-ia que à imagem das viragens que têm havido ao longo da carreira de Hancock, o próprio alinhamento de River (“I wish I had a river”) é em si mesmo uma paradoxal consagração da imprevisibilidade.
 
Todo o gesto é demasiado singular para não ser devidamente destacado, pese ainda que, como é provável que fosse inevitável, River não deixe de ser uma obra irregular.