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Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

Nico - Andy Warhol

 

 

 

 

 “Beauties in photographs are different from beauties in person. It must be hard to be a model, because you’d want to be like the photograph of you, and you can’t ever look that way. And so you start to copy the photograph. Photographs usually bring in another half-dimension. (Movies bring in another whole dimension. That screen magnetism is something secret – if you could only figure out what it is and how to make it, you’d have a really good product to sell. But you can’t even tell if someone has it until you actually see them up there on the screen. You have to give screen tests to find out.)”
               Andy Warhol – The Philosophy of Andy Warhol
Foram chamados de “screen tests” em referência a uma prática cinematográfica, e no caso especificamente hollywoodiana, já que eram parte integrante de um dos vectores axiais da actividade de Andy Warhol: a construcção das suas “superstars”. De facto, nada tinham a ver com essa prática de “screen tests”, conducente à escolha de actores para um filme. Eram sim “retratos” do núcleo da Factory ou de visitantes, em que muitas vezes, aliás, como de resto em tanta em tanta coisa que aconteceu na Factory, a intervenção directa de Warhol até foi quase nenhuma – ele era o catalisador.
 
O princípio era extremamente simples: o retratado posava para a câmara o tempo de um rolo inteiro, usualmente imóvel, e apenas imagem, sem som. Contudo, na projecção passava-se das usuais 24 imagens por segundo para 16, e este diferimento de velocidade, este “ralenti” de projecção, confere uma “aura” muito particular a estes “screen tests”, de algum modo ainda espectral, mas também mais intensa.
 
Designá-los por “Andy Warhol’s Screen Tests” é apenas um exercício de reconhecimento, na medida em que não há outro caso assim em que a função autoral esteja tão dissipada. E, do mesmo modo, altera-se a perspectiva do espectador, já que dificilmente se pode dizer que os “screen tests” solicitem uma visão continuada.
 
Existem centenas de “retratos”, de personalidades bem conhecidas, como Marcel Duchamp, Salvador Dalí, Susan Sontag, Allen Ginsberg, Bob Dylan ou Dennis Hopper, mas a grande maioria são daqueles que estiveram ligados a projectos de Warhol ou foram parte integrante da Factory. Alguns dos “tests” foram coligidos pelo próprio Warhol em projectos conceptuais como Thirteen Most Beautiful Women ou Thirteen Most Beautiful Boys ou em eventos multimedia. A grande maioria deles permanecia no entanto isolados até o MoMA os ter compilados em “reels”, em bobines.
 
Pelo seu lugar particular na iconologia warholiana, e de resto também por terem sido objecto, cada uma, de um maior número maior de “screen tests” que qualquer outra pessoa, Nico e Edie Sedgwick têm um destaque especial.
 
Desde ontem decorre na Cinemateca Portuguesa, também integrando e concluíndo o Festival Temps d’Images, um daqueles raros ciclos que colocam efectivas questões de cinema para reflexão: “O cinema à volta das cinco artes – cinco artes à volta do cinema” ou “cinematografia – coreografia”. Programado por Pierre-Marie Goulet e Teresa Garcia, o ciclo propõe uma visão coreográfica do cinema, para além daquela tradicional das sequências dançadas da comédia musical, uma noção pois de figuras de movimento, num confronto inclusive com aproximações maiores à imobilidade.
 
E ontem mesmo foi apresentado o “Reel 12” dos “Screen Tests”, naquele que afinal foi também um programa Nico, com o seu “test” compilado nesse “reel”, que na catalogação geral é o “screen test 238” e é de resto um dos que mais se afasta do princípio genérico da imobilidade, e dois dos filmes da trilogia que com ela fez Phillipe Garrel, La Cicatrice Intérieure e Athanor.
 
E aí pois em cima dois fotogramas de Nico no “screen test 238”.