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Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

Duras Cinéma

 

 

 

 
 
Houve filmes antes do cinema dela. Talvez se pudesse sugerir que houve talvez mesmo um “éden cinéma” nessa infância e juventude na Indochina, facto de biografia que ela transformou em matéria recorrente da obra; talvez. Mas houve filmes antes do cinema dela, filmes “sobre” texto delas; pouco importam, e só na medida em que, por contraposição, mais claro tornam como a aventura do cinema de Marguerite Duras é uma recomposição singularíssima da matéria literária, a dela própria, de que outros antes se apropriavam segundo os padrões convencionados da “adaptação”.
 
Mas antes também houve um outro filme. Diz ela: “Eu vi, eu vi tudo em Hiroshima”; contrapõe ele: “Não viste nada em Hiroshima”. O famoso diálogo de Hiroshima, Mon Amour (o filme de Alain Resnais em que Duras não foi só “a argumentista” mas de facto co-autora) é uma declaração do cinema moderno: como instaurar na visibilidade cinematográfica a sua própria questionação? Mas poderemos notar também que no famoso diálogo se instaura a disjunção entre os objectos da nomeação e as evidências imediatas, que tantas consequências durasianas viria a ter.
 
Há meses revi India Song; talvez o soubesse ainda de cor, mas não o via há 20 anos. Com o regresso intenso de memórias, ocorreu contudo um sentimento que, se não chegou a ser de perplexidade, também não podia ser negado: a apreensão da pose, do “look” e modelos Cerrutti. Também lá está, talvez. Ou antes, parece-me inegável que o filme enquanto tal é susceptível dessa leitura, que pode ter sido um dos factores que à época contribuíu para o seu êxito. Só não me incomodei demasiado porque o facto ainda mais me reforçou quanto é capital considerar sim o extraordinário díptico India Song/Son nom de Venise dans Calcutta désert.
 
Convém brevemente considerá-los em situação, tendo como postulado a centralidade desse diptíco de 1975/76. Os filmes extremos, Détruire, dit-elle (69) e Les Enfants (84) são relativamente periféricos ao sistema durasiano, o que lhes não retira interesse, de modo algum; não só são objectos admiráveis na sua singularidade, como as suas próprias diferenças em relação ao sistema são particularmente iluminantes. Nathalie Grangier (71), Jaune le soleil (72) e La Femme du Gange (74)são objectos de transição, cabendo assinalar a eventual curiosidade de o primeiro e o último terem as primeiras presenças de algum destaque de Gérard Dépardieu, facto que para além do que hoje tem de anedótico haverá de ser considerado em relação ao posterior e fulcral Le Camion (77); Vera, Vera Baxter (77), é um desastre; L’Homme Atlantique é o famoso filme quase sem imagens, com a “voz off”, ponto limite do percurso cinematográfico de Duras.
 
Disse: ao princípio houve Hiroshima, meu amor. Mas agora que o elenco me faz estabelecer a cronologia, ocorre-me que ao princípio estava também Destruir, diz ela – e ocorre-me o texto de Blanchot:
 
“Destruir: foi a um livro (era ‘um livro’?, um ‘filme’? o intervalo dos dois?) que pertenceu dar-nos esta palavra como palavra desconhecida, proposta por uma linguagem de que seria a promessa, linguagem que talvez não tenha senão esta palavra a dizer. (…) Destruir. Como isto ressoa; docemente, ternamente, absolutamente. Uma palavra – infinitivo marcada pelo infinito – sem sujeito; uma obra – a destruição – que se cumpre pela própria palavra” ( Maurice Blanchot - L’Amitié).
 
Não sei se há mais belo texto sobre a língua de Duras, sobre a capacidade, o poder da palavra, nisso, no “intervalo”. O cinema de Duras joga-se num “espaço entre”, a literatura e o filme, a voz e o espaço, os sons e as imagens. Sim, a língua é literária, mas é a resistência dessa língua aos códigos vigentes da “adaptação” que irriga os sentidos.
 
No cinema de Duras o espaço filmíco nunca é só o espaço do visível (era essa já a questão de Hiroshima, justamente). A capacidade de nomeação já transporta para o presente do filme a memória de um outro espaço (“son nom…”). Mas sobretudo, a construção plástica do espaço visível é associada à disjunção do espaço sonoro – afinal o cinema não são imagens e sons?
 
Duras rasga, destrói a ilusão da “mimesis”; em India Song, a banda de som era pré-existente, os actores ouviam as suas próprias vozes, progressivamente outras se imiscuindo mesmo, como a da própria Duras, claro. Radicalmente, Son nom de Venise... é feito com toda a mesma banda de som de India Song mas com outras imagens, desabitadas.
 
A progressiva ausência, a des-figuração do cinema de Duras, cumpre um projecto geral que tinha os seus fundamentos já em Destruir, diz ela: a “des-realização”. As imagens sugerem-se, como essas que pontuam a conversa e a leitura de Duras e Dépardieu em Le Camion. Mas a radicalidade deste cinema é também a de conferir ao espectador a capacidade de reencontrar a possibilidade de imaginar.
 
Num extraordinário texto, Duras explicou como quatro vezes viu A Noite do Caçador e quatro vezes fez o mesmo erro. Erro? Provavelmente ela continuou a ver o “seu filme”. Talvez que, no excesso de imagens desde a infância, tenhamos perdido a capacidade de sentir os nossos “éden cinema(s)”.
 
Se ela achava que “o cinema pára o texto, fere de morte o texto”, e tentava salvar o texto dessa paralisia, também entendia que “é no lugar do espectador que se faz o cinema”. Até ao limite, com a capacidade evocadora da voz, mas sem imagem, em L’Homme Atlantique. A cada espectador cabe a possibilidade de, com Duras inconfundivelmente, fazer o seu cinema.
 
 
“Cinema, disse ela” – “Público”, 21-11-03
 
 
 
Um dia ela viu impresso um texto meu, sobre o cinema dela, claro, e exclamou: “ Mais Augusto, tu signe AMS! Sur le tournage de ‘India Song’ on disait jamais Anne-Marie Stretter, on disait toujours AMS”. Anne-Marie Stretter, Anna-Maria Guardi de ”son nom de Venise”, uma das minhas personagens de eleição – e nunca me apercebera eu da coincidência das iniciais, nem o facto teria qualquer relevo, se não tivesse ficado na minha memória que foi M. D. a notá-lo.