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Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

O dilema haendeliano

Marijana Mijanovic
 
 
 
Estranha e madrasta fortuna esta: se na programação das instituições musicais e culturais portuguesas são escassos, para já pelo menos, os eventos respeitantes ao Ano Haendel, dois merecem destaque, acontece é que são ambos em Lisboa, no mesmo dia, e chegam a sobrepor-se!
 
É no próximo domingo, 11: às 19h, uma das melhores intérpretes actuais de Haendel, mas mesmo das mais notáveis, a contralto Marijana Mijanovic, apresenta-se na Gulbenkian com a excelente Orquestra de Câmara de Basileia; estará esse concerto a terminar e já começa no CCB, às 21h, o de Il Giardino Armonico, que será desnecessário frisar ser uma das mais prestigiadas formações barrocas.
 
Em rigor, o grupo dirigido por Giovanni Antonini dedica-se ao barroco italiano, mas não há qualquer contradição, porque para além da origem alemã e da consagração inglesa, Haendel foi também, estilisticamente, um compositor “italiano”. Para não falar agora das esplêndidas obras do seu período romano, essa matriz é clara nos Concerti Grossi, segundo o modelo de Corelli. No momento em que é editada uma sua gravação dos Concerti Grossi op. 6 (com data prevista de lançamento em Portugal no próximo dia 19), Il Giardino Armonico toca no CCB quatro dos concertos dessa colectânea, intercalados por dois outros de compositores contemporâneos (e por vezes rivais) de Haendel: o esplêndido Concerto Grosso op. 5, nº 12 “La Follia” de Geminiani (este explicitamente devedor de Corelli) e um concerto para flauta de Sammartini. Um programa de imenso interesse, pois.
 
Mas se esse concerto justifica as atenções, o programa de Mijanovic deve figurar entre os destaques da temporada da Gulbenkian. Em 2007, a contralto (porque é de facto contralto e não meio-soprano como é anunciada na brochura geral da temporada) publicou um disco, “Affetti barrochi” com árias escritas por Haendel para o mais famoso dos seus intérpretes, o castrato Francesco Bernardi, dito Senesino por ter nascido em Siena, árias de Rodelinda, Radamisto, Siroe, Giulio Cesare e Orlando. Em princípio era pois isso que se anunciava.
 
Sucede que o programa é ligeiramente diferente, e de algum modo ainda mais fascinante: Mijanovic cantará de facto árias de Orlando, Rodelinda e Giulio Cesare, mas também obras de Vivaldi, árias de Andromeda liberata e Orlando furioso e a magnífica cantata Cessate, omai cesssate. Trata-se de um programa excepcional.
 
A redescoberta da produção operática de Vivaldi é bem mais recente que a de Haendel – e, aliás, Mijanovic participou em três importantes gravações, Bajazet dirigido por Fábio Biondi, Motezuma com Alan Curtis e Tito Manlio com Ottavio Dantone. O que já não se pode desconhecer é que António Vivaldi foi também um mestre da escrita vocal e operática.
 
Mas mais: há um ponto importante de frisar, e que se prende com um continuado equívoco em torno da expressão “bel canto”. Em termos estritos é erróneo designar de “bel canto”, como é habitual, as óperas de Bellini ou Donizetti, que são sim melodramas românticos ainda de reminiscências belcantistas. O “bel canto” foi sim o canto ornamentado, surgido no barroco e com derradeira expressão em Rossini. Justamente Haendel e Vivaldi (e no tocante ao segundo também não há razão para sobrarem dúvidas) foram dos maiores mestres, mesmo “os” mestres maiores desse canto ornamentado. Um programa inteligentíssimo como o que Mijanovic propõe (inclusive com uma “personagem” abordada por um e outro compositor, a do Orlando Furioso de Ludovico Ariosto) será pois uma ocasião excepcional de aproximação e confronto entre os dois grandes compositores e grandes mestres da vocalità.
 
Estranha e madrasta fortuna esta que quase forçosamente obriga a, Haendel por Haendel, optar entre Marijana Mijanovic e Il Giardino Armonico, em Lisboa, a 11 de Janeiro.