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Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

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Cantatas de Bach - I

 

Bach
Cantatas vol. XVI – “Para o domingo seguinte ao Natal”
Moteto “Singet dem Herrn ein neues Lied”, BWV 225, Cantatas 152, 122, 28 e Cantata BWV 190 “Singet dem Herrn ein neues Lied” (para o dia de Ano Novo)
Katharine Fuge, Gilian Keith, Joanne Lunn, Daniel Taylor, James Gilchrist, Peter Harvey
Monteverdi Choir, English Baroque Soloists
John Eliot Gardiner
Soli Deo Glori, dist. CNM
 
 
Em 2000, no 250 anos da morte de Johann Sebastian Bach, Gardiner e as suas Monteverdi Productions empreenderam um projecto de “peregrinação” absolutamente sem paralelo: durante esse ano realizaram a integral das cantatas litúrgicas de Bach num conjunto de cidades (passaram pelo Porto).
 
Com a “peregrinação” perspectivava-se também um novo ciclo integral em disco – e quem imaginaria, há 25 ou 20 anos, quando se seguia é caso para dizer que devotamente aquele que era à época o empreendimento mais ousado da história da indústria fonográfica, o ciclo dirigido por Nikolaus Harnoncourt e Gustav Leonhardt na Telefunken – “Das Alte Werke”, quem imaginaria que agora estivessemos com três integrais em curso, as de Gardiner, Suzuki e Koopman!
 
Só que quem não esteve pelos ajustes foi afinal a editora que em Gardiner tinha um dos seus maiores trunfos, a “Archiv” da Deutsche Grammophon. Apenas alguns volumes foram ainda publicados aí, decidindo Gardiner a criar o seu próprio “label” discográfico, “Soli Deo Glori” – o mesmo sucedeu aliás com Ton Koopman na Erato, tendo também o músico holandês estabelecido a sua própria etiqueta, Antoine Marchand (nome que é literalmente a tradução francesa de Ton Koopman).
 
Há que dizer que o conjunto se está a apresentar bem mais interessante do que seria expectável. Se o brilhantismo característico de Gardiner se mostrara bastante superficial na abordagem das Cantatas, esta plena imersão durante todo um ano revela-se bem mais frutífera.
 
Não menos, no entanto, se deve deixar de ter em conta o estrito quadro temporal em que foi realizada esta integral, certamente com imensa dedicação, mas não menos por certo também sendo em especial extenuante. E convém atender a esses dados concretamente na escuta deste vol. XVI, que ao contrário dos outros não é duplo, pela sua particular situação na quadra natalícia – e lançado agora por esse mesmo motivo.
 
Seguindo o calendário, o presente disco corresponde também ao último concerto da gigantesca “tournée”, a 31 de Dezembro de 2000 em Nova Iorque. É mais que provável que o cansaço acumulado tenha sido um factor para que a obra de abertura, o moteto “Singet dem Herrn ein neues Lied” (incluído no programa em razão de ter o mesmo “incipit” que a famosa Cantata de Ano Novo), soe tão pálido – o que ainda assim não deixa de ser desagradavelmente surpreendente, já que é ímpar a excelência do Monteverdi Choir.
 
Exceptuada a constante distinção do baixo Peter Harvey, as perspectivas só mudam de facto com as Cantatas BWV 28 (com uma belíssima ária inicial da soprano Joanne Lunn também) e 190, especialmente na última, em que enfim se reencontra, nessa festiva obra, a magnificência do Monteverdi Choir e o brilhantismo dos English Baroque Soloists também –  e seria mesmo uma das mais esplendorosas interpretações da Cantata “Singet dem Herrn ein neues Lied!” se não ocorresse uma desastrada ária, “Lobe, Zion, deinen Gott”, “cortesia” de Daniel Taylor.
 
Mas, e atendendo também que, exceptuado Harvey e a referida ária “Gottlob! Nun geht das Jahr zu Ende” por Lunn, os solistas são claramente insatisfatórios, este é um volume algo mitigado, e bem inferior a outros já publicados. Resta a singularidade distintiva de incluír as cantatas da quadra natalícia e que, longe de afastar as atenções de Gardiner, nos deve antes solicitar para uma percepção mais matizada, atendendo a outros momentos do ciclo – ou, dito de outro modo, não é de modo nenhum uma introdução a esta integral, antes uma passagem, saliente em termos de calendário, mas musicalmente menos relevante.