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Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

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Tributo a Oscar Peterson

 

 

Oscar Peterson (15/08/25 – 23/12/2007) foi um pianista de virtuosismo fenomenal, disso não há dúvidas, e de uma versatilidade que o fez construir uma discografia ímpar na história do jazz, verdadeiramente enciclopédica: tocou com Coleman Hawkins, Ben Webster e Lester Young, com Louis Armstrong e Ella Fitzgerald, com Billie Holliday e Sarah Vaughn, com Charlie Parker e Dizzy Gillespie, com Johnny Hodges, Benny Carter, Sonny Stitt e Stan Getz, com Roy Eldrigde, Clark Terry e Freddie Hubbard, com Lionel Hampton e Milt Jackson, com Stephane Grapelli e até um violinista clássico como Itzhak Perlan, etc!
 
Um e outro factor muito contribuíram também, no entanto, para a continuada desconfiança que também muito suscitou, a suspeição de um virtuosismo mecanicista, a que acresceu o facto, também ele “suspeito”, que desde o momento em que o célebre produtor Norman Granz o descobriu e contratou para o arranque do Jaaz at the Philarmonic, no Carnegie Hall, em 1948, foi muito mais um músico de salas de concerto do que de clubes.
 
Todavia, excepto explicitamente Miles Davis, os seus pares não cessaram de o admirar: a discografia é disso exemplo suficiente, mas houve mais e conhecidos elogios, como o de Duke Ellington, que lhe chamou “o marajá do teclado”, de Count Basie que dele disse que tocava “a melhor caixa de marfim que alguma vez ouvi”, de Ray Charles que tão só exclamou que "Oscar Peterson is a mother fucking piano player!". Ainda mais digno de consideração é o respeito que por ele manifestaram outros pianistas, como Bill Evans, ou Herbie Hancock e Diana Krall que num artigo ontem publicado no “Los Angeles Times” diziam, um e outra, que Peterson tinha sido a influência decisiva que os fez tornarem-se pianistas de jazz.
 
Se é certo que momentos houve, e vários, em que a auto-confiança do virtuosismo o fez rodear-se de comparsas sem espaço de afirmação, e com isso se tornou também previsível e superficial, não é menos certo que Oscar Peterson todavia também não cedeu a compromissos de modas e vagas, como sucedeu por exemplo com um Dave Brubeck ou um Stan Getz, e que para além do seu prodigioso pianismo deu redobrados lustros à arte do trio, nomeadamente quando se rodeou de um contrabaixista e de um guitarrista, como com Ray Brown e Herb Ellis nos anos 50 e Niels-Henning Orsted-Pedersen e Joe Pass nos anos 70.
Com Ray Brown e Herb Ellis
Oscar Emmanuel Peterson era afro-americano, mas não cidadão dos Estados Unidos: nasceu numa família pobre, nos subúrbios de Montréal – de resto cidade de origem de outro pianista de jazz, Paul Bley, sendo que com esses, como com um Neil Young, até um David Cronenberg, ou Diana Krall também, muitas vezes se esquece que são canadianos e não norte-americanos. E se foram inúmeros os prémios que recebeu, incluíndo sete “Grammies” e o “Life Achievement Award”, além de muitos triunfos nas votações anuais da revista “Down Beat”, no seu país foi cumulado de honras.
 
Peterson, de resto, tinha particular orgulho, entre as suas obras, pela “Canadiana Suite”. Ocorre dizer-se que era mesmo um totem nacional, atendendo nomeadamente a que em 2005, quando dos seus 80 anos, os correios canadianos fizeram-no mesmo objecto de um selo, a única vez que isso ocorreu com alguém vivo, que não os soberanos.
Apesar de ter aprendido música desde cedo, Peterson tornou-se profissional contra a vontade do pai, que contudo lhe disse que então tentasse “ser o melhor” – conselho que Oscar Emmanuel nunca esqueceu.
 
A influência de Teddy Wilson e de Nat “King” Cole (a de Cole perdurou aliás não só numa certa tendência a um melodismo insinuante como sobretudo na sua própria arte do trio) conjugou-se com uma descoberta que começou por ser um choque intimidante: a de Art Tatum.
 
No referido artigo do “Los Angeles Times”, Herbie Hancock conta também como um dia ousou finalmente perguntar a Peterson o que sentira perante Tatum, e ele contou como depois do ter ouvido foi para o segundo andar da sua casa e quis mandar fora o piano. “You too, Oscar?”, perguntou Hancock; “Me too. Tatum scared me to death”, respondeu o outro.
 
O certo é veio a atingir níveis de virtuosismo só comparáveis aos de Tatum, e todavia mais substantivos, quando o outro tendia a ser mais pirocténico. Combinando a mão esquerda do pianismo “stride” com uma prodigiosa destreza da mão direita, um incrível jogos de pedais e uma assombrosa variedade no “toucher”, Oscar Peterson, por muitos momentos mais superficiais que também tenha tido, foi sem dúvida um gigante do piano e um gigante do jazz.
 
 
P.S. – Cabe recordar que, depois das mortes de Max Roach e agora de Oscar Peterson, os dois grandes gigantes do jazz veteranos entre os veteranos são Ornette Coleman, que veio este ano ao “Jazz em Agosto”, e Sonny Rollins, que a 18 de Setembro passado assinalou o 50º aniversário da sua estreia no Carnegie Hall, num concerto com Roy Haynes e Christian McBride, uma gravação a ser editada em 2008. Ambos têm 77 anos.