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Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

Letra de Forma

"A crítica deve ser parcial, política e apaixonada." Baudelaire

Réplicas, comentários - e questões

 

A propósito do texto anterior, ou, mais exactamente, da publicação de uma réplica, importa-me de novo esclarecer que o caixa de correio existe também para respostas e comentários. Se bem que o Letra de Forma funcione como página pessoal, não menos me é importante estar aberto ao debate e à polémica. Não aceito contudo é a “caixa de comentários”, sendo que como, é facilmente verificável, e é importante sobre isso reflectir também, as ditas caixas são sobretudo povoadas por comentários ou sem qualquer interesse ou dando azo a estados de ressentimento, quando não de insulto, sendo também que quando há comentários que são de facto pertinentes então eles devem estar em situação de leitura imediata – e para “moderar” uma tal caixa não tenho a menor das vocações.
 
Escrevi em tempos um texto, “Foi você que pediu uma democracia SMS?”, sobre a intrínseca perversidade das sugestões mediáticas de pretensa “democracia participativa” e os “inquéritos feitos” por jornais junto dos seus “leitores” – dos leitores que se dispõe a fazer militantemente a sua opção por meio da Internet, como é óbvio. E esse meu texto data de Novembro de 2002, bem antes portanto da celeuma provocada pela votação no concurso “Grandes Portugueses” – sendo curioso, acrescento, que o mesmo método tenha sido “pacificamente” aceite como metodologia de outro análogo concurso, o das “Novas Sete Maravilhas do Mundo”, que até teve – sim, convém relembrá-lo – o patrocínio do Ministério da Cultura da Profª Pires de Lima, e mesmo um representante destacado em jeito de comissário por esse ministério, nada menos do que um dos bonzos do regime, o Prof. Freitas do Amaral, supondo-se que deveria mesmo ter sido motivo de “orgulho nacional” o facto da apoteose ter tido lugar em Lisboa!
 
Há evidente que há mutações das sociedades no sentido da chamada “democracia de opinião”, de resto mesmo com importantes consequências políticas, como foi o caso em França da candidatura de Segoléne Royal, que de facto emergiu da net e dessa espécie de página de “myspace” que se designou por “désiresdeavenir”, com a notória consequência dessa mescla de aspirações se ter tornado em termos de projecto política num efectivo nado-morto.
 
Em termos mais latos, é evidente que essa lógica tendencialmente instantânea da “democracia de opinião” (a tal “democracia sms” e todos os seus correlatos) está a agravar ainda mais a crise patente das democracia representativas, dos laços da representação política e das instâncias de regulação e mediação, mesmo no sentido do que o sociólogo Pierre Rosanvallon designa por Contre-Democracie – e o subtítulo desse livro, “La politique à l’âge de la défiance”, indica uma disseminada atitude não só de “desconfiança” mas de ressentimento e protesto privado de conteúdos concretos, que podendo ainda ter fundas razões, e tem-nas por certo, se traduz, mais do que em qualquer atitude de mudança, numa deslegitimação generalizada de que tão só sobressaem, reforçando o seu poder sensacionalista e a derrota do pensamento e da acção reflectida, as televisões e imprensa ditas “populares” – lógica que é prosseguida na manifestação imediata por meios de sms ou da net.
 
Há algum tempo atrás, um editoralista do “Le Monde” constatava amargamente que enquanto sempre fora regra deontológica do jornal os textos serem assinados, a edição electrónica estava agora inundada por comentários anónimos ou de identificação da autoria não controlada. E basta ver as caixas de comentarias nas edições electrónicas do “Expresso” e do “Público” para se verificar o tipo de teor altamente maioritário dos comentários.
 
Não pode ser ignorado que esta é uma das questões mais fundamentais da nova era dos media, concorde-se ou não com a posição extremamente crítica, claramente refractária mesmo, expressa por Andrew Keen em O Culto do Amadorismo (agora editado em Portugal pela Guerra e Paz), tal como não pode ser ignorado o debate em curso nos Estados Unidos sobre se os blogs, no modo mais imediato de simples expressão de opinião, não são causa determinante na rarefacção ou desaparecimento dos espaços de crítica, de opinião fundada e articulada, na imprensa – questão tanto mais importante quanto de facto coloca em causa os fundamentos da noção de espaço público, um dos sustentáculos axiais das sociedades abertas e democráticas.
 
Já agora, e no que a blogs e caixas de comentários diz respeito, estas são apresentadas (e foi-me reiteradamente exposta tal consideração a propósito do Letra de Forma) como um factor de “animação”, que afinal o é em termos de competitividade e de um uma espécie de correlato de “guerras de audiências”. Claro que não menos tosco é, não tendo comentários, afirmar uma vocação hegemónica publicando contributos, reais ou supostos, como também fotografias indigentes, naquela formulação falaciosa do inevitável Pacheco Pereira,  “O Abrupto feito pelos seus leitores”.
 
Creio efectivamente que estas são questões de ordem comunicacional importante, de mutação do espaço público, mas não queria deixar também de reiterar a minha disponibilidade para a publicação de comentários e réplicas, para o debate e contraposição, e que é também com vista a isso que existe o endereço letradeforma@sapo.pt – e já agora aproveito também para agradecer o conjunto de informações e apreciações que me é enviado, sendo que algumas sugestões ou pedidos terão oportunamente resposta.

Call Boys e Vidas dos Outros - rectificação e adenda

 

 

 

 

A propósito da observação que aqui fiz ao título português de Das Leben der Anderen referido por Rui Moreira (Depois de ter lhe sugerido Call Girl, recomendo, caro leitor, que não deixe de ver As Vidas dos Outros, um magnífico produto do novo cinema alemão, disponível em DVD”), um leitor atento, a quem agradeço, chama-me a atenção para que nesse particular estou errado: tal como Moreira escreveu o título é mesmo As Vidas dos Outros.
 
Não deixa de me ser intrigante que só nas presentes circunstâncias me tenha apercebido do facto, pois que para além de “A Vida dos Outros” me parecer uma tradução mais correcta, tenho a noção de que nas muitas conversas tidas sobre esse filme a regra foi falar de “A Vida...”. Como é óbvio, para quem não viu o filme em sala e apenas o descobre agora na edição em dvd, As Vidas dos Outros é título directamente estampado no objecto, de capa acima reproduzida. 
 
Em qualquer caso, é devido a rectificação com as devidas desculpas – e desculpas também a Rui Moreira, por no caso ser descabida a observação que fiz.
 
Entretanto, faço notar também que em carta hoje no “Público” há uma resposta de José Vieira Mendes, “Jornalista, crítico, membro da bolsa de jurados do Instituto de Cinema e Audiovisual”, editor da finita “Première”.
 
Por ironia, a resposta directa a Rui Moreira no jornal em que vem publicando tais dislates partiu de um entusiasta confesso de Call Girl. E diz ele:
 
“A propósito do artigo de opinião do dr. Rui Moreira, intitulado ‘A revolta dos boys’ (14 de Janeiro), venho por este meio afirmar que sou um dos boys a que ele se refere. (...) Não vejo razão para o dr. Rui Morteira pôr tudo no mesmo saco e inclusive nos chamar ‘batoteiros’ e fazer muitas considerações levianas de um mercado que se vê conhece apenas por fora. Sou efectivamente um dos boys ou dos críticos que têm assento nos júris. (...) Ora bem, em primeiro lugar a bolsa de jurados do ICA - Instituto de Cinema e Audiovisual - é constituído por diversas personalidades de destaque e não só por críticos cinematográficos. Lugar esse a que o dr. Rui Moreira se pode candidatar, mas não sem antes ler a lei do cinema e a regulamentação de apoio à criação cinematográfica, e tirar todas as dúvidas relativamente aos critérios com que os membros do júri têm que se reger e que eliminam qualquer probabilidade de batota ou interferência directa na selecção deste ou daquele filme. Por último, regozijo-me também pelo dr. Rui Moreira ter gostado muito do filme alemão As Vidas dos Outros, o que demonstra nele uma certa cultura cinematográfica e não só de filmes americanos. Mas apenas por mera curiosidade, As Vidas dos Outros fez apenas, e apesar de ser um grande filme, 15.000 espectadores nas salas portuguesas em 2007 (...). Portanto, algo se passa, mas a culpa não é dos críticos, nem só do cinema português”.
 
Gostaria apenas de acrescentar, sem qualquer ironia, que me apraz registar que José Vieira Mendes diga também, referindo-se a mim, que “acho que ele há muito tempo não representa a opinião geral da crítica cinematográfica”. Não só já expliquei suficientemente que nada tenho a ver com qualquer “corporação crítica” e quão distante estou da generalidade da que hoje se pratica na imprensa portuguesa, como não pretendo “representar” nada, e também porque entendo, e volto ainda uma vez a afirmar, que uma situação tão esmagadoramente hegemónica e “fazendo opinião” como a que tivemos no “Expresso – A Revista” nos anos 80, com o deserto à volta, nada tem de salutar – e inclusive constituíu uma das razões porque fui um dos que se votaram ao processo de fundação de um outro jornal.

Tréplica a Rui Moreira - I

Como o ilustre Presidente da Associação Comercial do Porto e comentador futeboleiro na sua recarga dispara em várias direcções mas quase só contra mim – e contra esta página, que não nomeia – investe, sou forçado a concluír que além de pessimamente informado, padece não só de demagogia e populismo rasca, como já se tinha notado, mas também de dislexia profunda.
 
Em primeiro lugar, estou completamente fora de qualquer sistema de atribuição de apoios do Instituto da tutela há tempo que baste – desde 1989, para ser preciso. Mais: pelas razões que invoquei, sou profundamente crítico do modo como esse sistema se tem vindo a processar. Não me ofende quem quer, nem quem insinua gratuitamente, e Rui Moreira pode mesmo chamar-me “situacionista” (o que é uma originalidade), que não me atinge.
 
É-me totalmente indiferente que Rui Moreira goste ou não de Call Girl. Nunca foi isso que esteve em causa, nem expressei qualquer opinião sobre o filme; era o que faltava pôr-me a discutir “o gosto dos outros” (para citar o título do inteligente filme de Agnès Jaoui, bem mais sério aliás do que o possa aparentar), o que de resto colidiria com os meus princípios de respeito da autonomia individual. Em matéria de apreciações cinematográficas, estou aliás mais que habituado a ter opiniões minoritárias, e mesmo a ser vituperado por algumas delas, com a ironia de suceder algumas com o decorrer do tempo passarem a ser até da “doxa”, caso por exemplo das continuadas defesas que fiz de Clint Eastwood e David Cronenberg – já agora, e porque veio à colação, oh críticos, oh tempora, oh mores, também posso acrescentar a tudo o que já escrevi que, se não fosse a consagração crítica que teve na Europa, nunca Eastwood teria sido reconhecido nos Estados Unidos e obtido Óscares, e já agora também, porque se pode estar a falar em “mainstream” sem saber do que se fala, que um filme como Million Dollar Baby esteve em risco de não existir porque a Warner não o queria produzir - e depois até teve o Óscar de melhor filme.
 
O que estava e está em causa é sim: 1) a total impunidade e leviandade de opiniões impressas absolutamente irresponsáveis, como a do artigo “Call Boys” de Rui Moreira, isto é, um abuso do espaço público, que descrebiliza o debate e o confronto de ideias, o que cada vez mais é um não pequeno problema da imprensa portuguesa e, 2) que o argumentário de Moreira se baseava num conjunto de falsificações históricas, coisa a que ele não responde. Insinuar que o actual sistema de apoios do Estado, por distorcido que seja (e eu acho que devia ser quase integralmente repensado) prossegue um hipotético “dirigismo” directo do tempo da ditadura, é nomeadamente dizer que Manoel de Oliveira, Fonseca e Costa, Cunha Telles, Paulo Rocha, António de Macedo ou Sá Caetano (cineastas que, como referi, integravam o único plano de produção do então IPC anunciado ainda antes do 25 de Abril), para apenas citar os vivos, foram “cineastas da ditadura”, insulto demasiado absurdo para que quem o enuncia tenha a menor das credibilidades na discussão.

Tréplica a Rui Moreira - II

E eis que, da reserva de argumentos, Rui Moreira ressuscita o fantasma de Branca de Neve de João César Monteiro, e fá-lo saltar do banco e entrar em campo. Certamente que o filme que foi realizado não correspondia ao projecto aprovado, tecla todavia mais que gasta, uma vez que as questões decorrentes foram devidamente resolvidas, tanto quanto se sabe e é público, entre o produtor do filme e o Instituto. Eis, no entanto, e isto sim importa, que o emimente comentador futeboleiro e nessa qualidade colega de painel de António-Pedro Vasconcelos, o realizador da dama de Moreira, Call Girl de seu nome, vem a propósito dizer que “o cinema ‘autista’ (...) não pode esgotar os subsídos” –  mas que despudorada invenção factual é esta?
 
Com todos os vícios do sistema de atribuição, que eu mais uma vez sublinho achar que existem, não têm tido apoios cineastas tão diversos, melhor dito, realizadores (e com eles, produtores) tão diferenciados na sua concepção de cinema como Manoel de Oliveira, Fonseca e Costa, Fernando Lopes, António-Pedro Vasconcelos, João Botelho, Joaquim Leitão, Pedro Costa, Teresa Villaverde, Leonel Vieira, João Pedro Rodrigues, etc, etc? Grave seria de facto se tal não sucedesse - mas sucede.
 
Do mesmo modo lembrarei que, de facto, inquisidores também não faltam. Se Rui Moreira entendeu ressuscitar o caso de Branca de Neve, será útil recordar-lhe que, a propósito, uma campanha contra João César Monteiro foi depois lançada por uma das associações de realizadores, aquela onde pontifica Vasconcelos, tendo o porta-voz sido José Carlos Oliveira. Que eu saiba, Um Rio, o filme seguinte do mesmo Oliveira, José Carlos, que extraordinariamente até teve apoio do tão anti-subsidíodependentes Rio, Rui, foi, por exemplo, um desses filmes que passaram sem deixar qualquer rasto; claro que se destinaria a um vasto público...
 
Quando Rui Moreira escreve que “não se pode disponibilizar apoios, lavando, depois, as suas mãos, desresponsabilizando os agentes que beneficiam de subsídios a fundo perdido, que fazem filmes totalmente pagos por esse dinheiro público e que não são auditados nem escrutinados por ninguém”, e ressalvando que o “totalmente” é inexacto, eu, o tal “insultador situacionista”, acho que isso sim, como tudo o que envolve a atribuição e gestão de verbas públicas, é uma questão séria. Acontece que, de certeza, como poderia saber Rui Moreira acaso soubesse do que fala em vez de ser mero megafone, se há alguém que desde há muito tempo insiste nesses aspectos, pois é este mesmo “situacionista” (pensando bem, é tão grotesco que acabo por achar imensa graça ao epíteto), já desde 1984, como está publicamente registado, coisa que nomeadamente à época me valeu os ataques do costume, imagine-se que na altura a dupla do contra-ataque sendo constituída por António-Pedro Vasconcelos e João César Monteiro!
 
Mas quando Moreira passa dessa questão, real e importante, para proclamar que os filmes não seriam escrutinados por ninguém “a não ser pelos críticos que têm assento nos júris e depois promovem os filmes e abatem os filmes e os cineastas que ousam afastar-se e enfrentar a sua ‘linha justa’”, o salto é de tal modo disléxico, e sem qualquer espécie de base factual, que só a paranóia do mais rasteiro populismo anti-intelectual de que os seus dois textos são perturbante sinal pode explicar tanta asneira – e estou tanto mais à vontade para o dizer quanto, insisto, há 17 anos que não integro nenhum júri do Instituto e nada, mas nada tenho a ver com qualquer “corporação crítica”.
 
Acontece ainda que, qual pescadinha de rabo na boca, se o argumentário soprado por Rui Moreira recuava históricamente a uma falsificação sobre as pretensas características “dirigistas” herdadas da ditadura, termina com outro insulto político, tão extravasante quanto grave: a comparação com a RDA e a Stasi evocadas em A Vida dos Outros (e não “As Vidas dos Outros” como ele escreve, sempre pertinente e fundamentado). Eu conheci a RDA, e essa é uma memória de que tenho particular horror, tanto maior quanto verifico que até há nostálgicos que tentam prosseguir políticas que lá os fascinaram. Rui Moreira não sabe do que fala e na sua total irresponsabilidade não faz de facto a miníma ideia, ao usar um argumento tão gratuito, do que é valor da liberdade face a aparelhos totalitários. E assim, portanto, conversa acabada – homens livres têm opiniões próprias, não sopradas e abusivas.

 

 

A resposta de Rui Moreira

A revolta dos boys
 
Como esperava, a minha crónica sobre cinema suscitou a ira dos que se sentiram visados. Augusto M. Seabra, no seu papel favorito de insultador situacionista, foi um dos que espumaram e a chamaram rasca. Não faltaram os comentários jocosos, ligando-me ao futebol (de que só os indigentes e incultos gostam e falam), invocando que sou presidente da Associação Comercial do Porto (que julgam ser de horríveis comerciantes) e apelidando-me de "empresário" (que é, para eles, sinónimo de ignorante e imbecil). Distorceram, claro, o que escrevi, sugerindo que só poupei Oliveira pela sua vetusta idade, que não sei o que é "cinema de autor", que não reconheço a diferença entre qualidade e bilheteira.
 
Essa reacção sistémica dos zelosos boys e dos auto-intitulados especialistas perante a denúncia que fiz do ciclo vicioso instalado e do clientelismo que afecta e infecta a crítica cinematográfica, é tão patética como compreensível. São eles, afinal, quem tem, e quer manter, o poder. São eles quem colhe os privilégios de dominar os júris e de determinar, através da selecção e, mais tarde, da crítica, quem filma e quem não filma. Naturalmente, não lhes convém que gente como eu se atreva a discutir esses critérios ou se aventure, sequer, a escrever que gosta de um filme como Call Girl, que, segundo o inquisidor Pedro Costa, tem o triste condão de entusiasmar os burgueses por uma mulher fatal...
 
Acontece que não me conformo com esta sina do nosso cinema e não me deixo intimidar pela pabulagem dos batoteiros. Entendo que o Estado deve regular e estimular o cinema português (e não apenas o mainstream) de forma responsável. Não se pode limitar a disponibilizar apoios, lavando, depois, as suas mãos, desresponsabilizando os agentes que beneficiam de subsídios a fundo perdido, que fazem filmes totalmente pagos por esse dinheiro público e que não são auditados nem escrutinados por ninguém; a não ser pelos críticos que têm assento nos júris e que depois promovem as suas escolhas e abatem os filmes e os cineastas que ousam afastar-se e enfrentar a sua "linha justa".
 
Não me incomoda, por exemplo, que César Monteiro tenha tido uma crise de inspiração ou de fotofobia ao realizar Branca de Neve. O problema é que o subsídio que recebera destinava-se a um filme convencional (com cenários e guarda-roupa), que o cineasta nunca realizou. Este cinema "autista", que despreza o público em nome da ideia romanesca de que o artista é um incompreendido, não pode esgotar os subsídios e estes não lhe podem ser atribuídos por falsos pretextos e pelas piores razões.
 
Depois de ter lhe sugerido Call Girl, recomendo, caro leitor, que não deixe de ver As Vidas dos Outros, um magnífico produto do novo cinema alemão, disponível em DVD, que retrata o dirigismo da produção artística. Nesse caso, é certo que o dirigismo é político, mas verá que se assemelha, pela corrupção que fomenta e pelos resultados que produz, ao dirigismo estético que continua em voga entre nós e que tem, nesta gente que incomodei, os seus Stasi de serviço. A esses, prometo-lhes que voltarei, em breve, a este tema.
 
 
in “Público” de 14-01-08

Cinema, críticos, futebol e "call boys" - IV

 
Eis que agora o cinema também é matéria do âmbito de “treinadores de bancada” e dos locutores públicos do “futebolês”. O que lhes não ocorre, no seu facciosismo, é que se alguém está estritamente a traçar uma suposta “via para o cinema português”, e assim a delinear um dirigismo, são eles mesmo, os “call boys” e “cow boys”. Querem sim sexo e padre, sexo, poder e futebol, sexo, poder e polícia, querem O Crime do Padre Amaro, Corrupção e Call Girl? Querem isso, e vêm falar ainda de “dirigismo”?
 
Mas como supõem que se garante o “apelo público”? Sabem por acaso que A Guerra das Estrelas começou por ser um divertimento quase experimental de George Lucas? Que E.T. foi o “pequeno filme pessoal” de Spielberg? Ou que agora a Dreamworks e a Warner andam confusas temendo por um projecto tão ousado como Sweeney Todd de Tim Burton?
 
(Sou um confesso admirador de A Guerra das Estrelas, rendi-me extasiado a E.T. logo na sua primeira apresentação pública em Cannes em 1982, Tim Burton é um dos meus autores mais apreciados, que fique tudo devidamente claro; se há pessoas que por facciosismo, e cabotinismo, tenham um discurso de rejeição do que é “sucesso” só por o ser, não faço parte desse lote.)
 
Conhecem estes articulistas os dados e factos do cinema em Portugal para saber como se fazem “filmes de mais público”? Saberão que realizadores e produtores que eram tido como garantes de “sucesso de público”, como o já citado Leonel Vieira, se depreciaram vertiginosamente? Têm alguma ideia concreta do impacto real das ficções telenovelescas e, mais grave ainda, dos “reality shows”, do impacto do sistema televisivo em geral?
 
Que há filmes e filmes que têm vindo a ser apoiados e produzidos condenados à insignificância, eis também o que é uma triste realidade que não pode ser iludida – e me leva de há anos à posição “impopular” de achar que há excesso de projectos apoiados e que deveria redifinições urgentes, mas esta é uma posição crítica pessoal. Não postulo linhas de orientação, ao contrário destes eminentes “treinadores de bancada”.
 
Quem serão afinal esses tal “call boys” que até dão título ao texto de Rui Moreira? Quem são nomeadamente os mencionados “críticos que desprezam tudo o que atrai público”, quem? É que já agora fico curioso por saber pois, pelo contrário, o que me parecem não faltarem é “críticos” com pouco sentido crítico, e alguns mesmo claramente enfeudados a distribuidoras e aos valores do “box office”, e das pipocas.
 
Que eu tenha sim apercebido, o notório “call boy” desse panfleto rasca, cheio de deturpações e insinuações, é o próprio Rui Moreira.
 
Mas o discurso do populismo “anti-intelectual” e “anti-críticos” ganhou uma tal dimensão, que até se viu esse artigo subscrito por um crítico literário e blogger de opinião fácil e abundante. Sim, já sabíamos que Eduardo Pitta também é muito “socialaite” e que, supondo-se cosmopolista, não raro cai na parolice. Pode ser que, tão “socialaite”, tenha achado que vir em socorro da Call Girl um “call boy” não apenas de bolsa mas de Palácio da Bolsa, era “chic a valer”. Mas mesmo sabendo como é fácil a tentação do blogger (e falo agora em termos gerais), é ainda assim inquietante de verificar quão longo é o lastro rasteiro do apelo contra um suposto “establishment crítico”, todavia já de si reduzido à insignificância de estrelas e estrelinhas.
 
 
 
Com estes quatro textos se retoma afinal uma reflexão sobre os estados críticos, sobre se “a ‘crítica’ ainda existe?”

Cinema, críticos, futebol e "call boys" - III

 

 

 

 

 
Vai sendo cada vez mais frustante de verificar o afunilamento da opinião impressa, a falta de renovação, o auto-centramento e defesa de interesses pessoais mesmo de vários colunistas, e sobretudo a absoluta leviandade de muitos dos argumentos expandidos. Também a este respeito, “Call boys” é um texto tristemente sintomático.
 
O apoio do Estado às actividades artísticas e culturais é recorrentemente apresentado como um “monstro tenebroso”. Que possam existir riscos é inegável, e volta de quando a quando a ser notório, como agora com o dirigismo em vários aspectos da actual equipa do Ministério da Cultura  – e, ao longo dos anos, não tenho cessado de me manifestar quando creio ocorrerem tentativas dirigistas, ou um sistema de promiscuidades que fecha o leque das opções. Mas os muitos “liberais” adeptos da retirada do Estado para funções apenas de preservação patrimonial, “esquecem-se” de uma condição básica do liberalismo: a criação de condições tão alargada quanto possíveis à manifestação pública não só das mais diversas opiniões, como também das mais diversas expressões, incluíndo as de ordem artística.
 
Que muita coisa seja inepta e mal-fundamentada nas atribuições de apoio por parte do Instituto do Cinema e do Audiovisual e de outros congéneres é inegável. Que daí se deduza a estigmatizaçao de um suposto “dirigismo” consubstancial a essas estruturas, é um salto arbitrário e afinal de natureza ideológica.
 
Em defesa do colega do “Trio de Ataque” e da sua Call Girl diz Rui Moreira “A.P.V. tem o raro mérito de produzir filmes de que o público gosta e que são sucessos de bilheteira. Paradoxalmente, paga caro essa virtude e é vítima de um sistema perverso de dirigismo, que teve início na Primavera marcelista. Nessa altura, como o regime queria evitar a censura directa, escolhia quem podia filmar através do controlo político dos subsídios, que eram atribuídos pelo Instituto Português do Cinema em função das conveniências e financiados através de uma percentagem das bilheteiras”. As asneiras são tantas que justificam a análise do detalhe.
 
1) - A que se propósito se pode escrever que “o regime queria evitar a censura directa”? Tinha acaso deixado de haver censura? Por exemplo, não estava proíbido O Mal Amado de Fernando Matos Silva?
 
2) – Quanto a essa de que “o regime (...) escolhia quem podia filmar através do controlo político dos subsídios, que eram atribuídos pelo Instituto Português do Cinema em função das conveniências”, diga-se apenas que, a) a Lei 7/71 foi consequência de um esforço persistente da geração do “cinema novo”, António-Pedro Vasconcelos incluído, e que na Assembleia Nacional do regime, forçado a reconhecer a necessidade de um novo quadro legal, mormente depois do decisivo apoio da Gulbenkian à cooperativa Centro Português de Cinema, quem sobretudo se bateu foram deputados da “ala liberal”; b) houve um único plano de produção antes do 25 de Abril, e nenhum dos autores com projectos aprovados, Manoel de Oliveira, António de Macedo, Manuel Guimarães, Cunha Telles, Artur Ramos, Sá Caetano, Fonseca e Costa e Paulo Rocha, era afecto ao regime, e vários eram mesmo oposicionistas declarados. Como então falar expressamente de “controlo político dos subsídios”? Santa ignorância, mas não ingénua.
 
Este exercício de falsificação é o pórtico necessário para o “dummy” abrir plenamente o espaço ao discurso e aos ressentimentos do ventríloquo, reconhecíveis a léguas: “Hoje (...), em vez de critérios políticos, o dirigismo exerce-se através de critérios pretensamente estéticos, fomentando o "cinema de autor" de que Oliveira é o paradigma, e impedindo a produção de cinema main stream. É por isso que A.P.V. só conseguiu, até hoje, produzir sete longas metragens e teve de adiar o seu Call Girl, já que no ano passado o subsídio lhe foi negado a pretexto de, imagine-se, ter menos capacidade de comunicação com o público do que a Belle Toujours de Oliveira. Ora, Oliveira merece todo o apoio, mas não pode esgotar os subsídios nem se pode transformar no paradigma do cinema nacional.”
 
Vamos lá a ver. Se bem me recordo, Call Girl foi de facto inicialmente preterido num concurso do I.C.A., em que foi nomeadamente aprovado Belle Toujours. As coisa não foram exactamente claras, mas também não foram redutíveis só a esses dois projectos. Nesse concreto tipo de concursos há vários factores a ponderar, e estou muito longe de estar seguro que a razão tenha sido a do projecto de Vasconcelos “ter menos capacidade de comunicação com o público do que a Belle Toujours de Oliveira”. De resto, se bem me lembro, foi também então aprovado Julgamento de Leonel Vieira, realizador que ainda há pouco tempo era suposto ser especialista em “sucessos de público”, e filme que, apesar da presença de algumas vedetas televisivas e do apoio da TVI, passou recente e fugazmente, quase sem deixar rasto. Portanto, mesmo que nem tudo tenha sido tão claro quanto desejável nesse concurso (o que aliás foi refutado por um membro do júri, o jornalista e ora provedor do “Público” Joaquim Vieira), é ainda assim redutor extraír a conclusão do texto de Rui Moreira.
 
Sucede que se justifica contudo essa conclusão ser devidamente ponderada. Tempos houve em que Oliveira era pura e simplesmente rejeitado. Hoje, quase centenário, com o estatuto de ser “O veterano” do cinema mundial, o diapasão mudou de tom, e é exactamente esse: “Oliveira merece todo o apoio, mas não pode esgotar os subsídios nem se pode transformar no paradigma do cinema nacional.”
 
Há umas semanas atrás, comecei a dedicar-me a tentar perceber o que é esta estranha “joint-venture” do “Público” e de “A Bola” que dá pelo nome de “Sexta”, pois que se já de si é singular e anómala a situação de em Portugal as empresas jornalísticas também se dedicarem agora a gratuitos (este e o “Global”), a associação daquelas duas entidades parece extravagante. Eis que no nº 8 de 14 de Dezembro, que até incluía um artigo sobre Oliveira, se me fez alguma luz (ou deverei dizer “Luz”?) quando, folheando com mais atenção, descobri que havia uma coluna do “jornalista de bola” Luís Francisco – atenção “jornalista de bola”, não de “A Bola”, pois vem do “Público” e é Director-Adjunto do “Sexta”, e “jornalista de bola”, que outra coisa são os bons jornalistas desportivos e de futebol.
 
Pois Luís Francisco mostra-se versado em cinema. De facto, creio recordar-me que fazia figuração em Tráfico de João Botelho, filme em que o figurante principal, autêntica “guest star” identificada com o S.L.B., com o Benfica, era... Bagão Félix.
 
E o que escrevia Luís Francisco? “O Cinema Português para lá de Oliveira”. Mostrando o seu amplo conhecimento da matéria logo declarava a abrir: “Manoel de Oliveira estreou esta semana mais um filme [afirmação incorrecta: tinha sim havido a ante-estreia de Cristovão Colombo – O Enigma, que só agora estreia]. Tal como aconteceu com todos os outros que já realizou , este também não me levará às salas para vê-lo” – nunca viu, mas não gosta e tem opinião impressa em jornal sobre a matéria. Continuemos....
 
Segue o hoje inevitável reconhecimento e elogio, “não posso deixar de ser profundo admirador [note-se bem, “profundo admirador”?] de um homem que se mantém, activo, lúcido e criativo na fronteira dos 100 anos”. E depois vem enfim a jogada: “Mas o cinema português tem de ser muito mais do que Manoel de Oliveira, sob pena de se eternizar no ciclo estafado do filme-de-autor-que-recebe-subsídio-e-faz-um-circuito-de-festivais-onde-recebe-grandes-elogios-e-depois-chega-às-salas-e-só-tem-meia-dúzia-de-espectadores [ufa!]. Eis, em todo o seu triste esplendor, uma das regras básicas do “futebolês”, como se pode ouvir e lêr naqueles programas de canal aberto que são do que mais lamentável há nas rádios e televisões: o “adepto” tem sempre certezas, aliás sabe de tudo, e já topou a jogada! Treinadores de bancada, em suma, com as certezas da clubite mais facciosa.

Cinema, críticos, futebol e "call boys" - II

 

 

 

 
Tinha em consideração Rui Moreira, Presidente da Associação Comercial do Porto e colunista do “Público”, como um homem independente, ainda que por vezes com um gosto de afirmação que manifestamente extravasa o âmbito das suas competências. Já que ele vem à colação por razões de cinema e, associadamente, de futebol, direi mesmo que não esqueço a independência que manifestou perante a decisão de Rui Rio em concessionar a privados um equipamento cultural público como o teatro municipal Rivoli – mesmo que um homem das suas responsabilidades podesse ter manifestado essa posição de forma mais audível -, nem mesmo, no que concerne até aos afectos clubistas, que sendo o F.C. Porto um clube tão presidencializado, é um dos poucos que tem feito ouvir uma voz mais distanciada.
 
Isto dito, o tal artigo “Call Boys” (“Público” de 31-12-07) é mais próprio de um “dummy” com ventríloquo por trás, está factualmente pejado de falsidades históricas, e é um apelo alarve à hostilidade das “massas” contra os “fazedores de opinião” (horrível expressão esta, é certa), categoria em que aliás Rui Moreira se inclui, mas de que se exclui quando o alvo são “os críticos”.
 
Vamos a ver se nos entendemos: eu não tenho a nada a ver com qualquer espécie de “corporação crítica”, antes pelo contrário, e há muito poucos críticos de cinema portugueses em actividade, dois ou três apenas, com quem ainda me sucede discutir cinema. Acrescento ainda que não só hoje em dia muito poucos filmes portugueses me interessam minimamente, como, ponderados uma série de factores que já não são de gosto pessoal, mas de diversos tipos de impacto, nacional e internacional, tenho mesmo a posição extremamente “impopular” de achar que objectivamente se produzem filmes a mais, ou filmes de nulo rasto a mais.
 
Não posso ainda  deixar de dizer que creio ter suficiente experiência, quer de estruturas de atribuições de apoios, quer de júris de festivais, para saber os casos em que me devo bater pelos meus critérios de apreciação e aqueles em que têm de ser ponderados uma série de factores. E isso também me faz acrescentar que, embora as atribuições de subsídios a filmes por parte do Instituto do Cinema e do Audiovisual seja processo que há anos deixei de seguir atentamente, como parte que é do recorrente psicodrama do “cinema português”, ainda conheço as regras legais e tenho também a noção de que a composição dos júris é muitas vezes inepta.
 
Todas as ressalvas feitas, não há que ter dúvidas sobre o intento de um artigo como “Call Boys”: propagando o sistema de discurso do “futebolês”, o portista Rui Moreira limitou-se a ser caixa de ressonância propagandística do seu colega benfiquista do “Trio de Ataque” em defesa de quem saíu, António-Pedro Vasconcelos – não sei se, já agora, o sportinguista Rui Oliveira e Costa se encarregará de um estudo de opinião para validar os “argumentos”.
 
Ora acontece que A.P.V., de que tem Moreira basicamente reproduz o argumentário, é uma espécie de Vasco Pulido Valente do cinema português (relação aliás fundamentada pela proximidade dos dois, V.P.V. tendo mesmo sido o autor do argumento original de um filme do outro, Aqui d’El Rei), isto é, já quase defendeu tudo e o seu contrário, com a particularidade de o fazer muitas vezes com uma virulência malsã e numa lógica do ressentimento. Ainda me lembro de um texto seu que me chocou imenso, de 1980 ou 81, quando A.P.V. era grande defensor de Manoel de Oliveira, mesmo seu produtor; tendo a situação excepcional daquele sido criticada por António de Macedo, cineasta por hoje ele tido como “injusticiado”, logo A.P.V. lhe retorquiu que, como o artigo do outro foi publicado num dia 8, podia ser motivado por ter a renda por pagar – note-se este nível!
 
Só que agora o inimigo de estimação passou a ser Oliveira, que se estaria nas tintas para o público. Acontece isto, que A.P.V. e tantos outros sonegam: se muita coisa se pode e deve discutir sobre o cinema de Oliveira, e se pode mesmo discutir a cláusula não-escrita pela qual todos os seus projectos são inevitavelmente subsidiados, não se pode é negar que àquele é indiferente sim o número de espectadores, mas não, de modo nenhum, que os seus filmes sejam estreados e assim cheguem ao público – e a Oliveira pesou-lhe muito não ter sido estreado, caso único, Le Soulier de Satin, longo de 4h30.
 
António-Pedro Vasconcelos foi, já o recordei, o godardiano “atittré” do cinema português. Foi autor de belos filmes, que lamento estarem esquecidos, como Adeus Até ao Meu Regresso, documentário com os soldados da guerra colonial, de facto a primeira-longa feita depois do 25 de Abril, exibida pela RTP no Natal de 1974; do mesmo modo lamento, e inclusive fi-lo saber junto de quem de direito, que quando do centenário do compositor, em 2006, não tivesse voltado a ser apresentado o seu primeiríssimo filme, 27 minutos com Fernando Lopes-Graça. E foi autor de Perdido por cem, Oxalá ou O Lugar do Morto. Depois, lamentavelmente, com o discurso do ressentimento conjugou-se uma decrepitude acentuada de filme para filme.
 
Mesmo em várias questões em que lhe assistem razões de fundo, ou em que tem experiência suficiente para que posições suas devem ser consideradas no debate, como o manifesto sectarismo na programação de cinema português, melhor dizendo, de realizadores portugueses, da instituição pública designada precisamente Cinemateca Portuguesa, ou da falta de adequação em muitos aspectos de uma política do cinema, Vasconcelos perde as razões que tenha pelos termos do discurso, pelo ressentimento e a “fulanização”.
 
E o ex-crítico radical, “enfant terrible” como o fora o seu muito amado Truffaut, que como poucos vilependiou tantos e tantos cineastas “mainstream” e mesmo respeitáveis autores, encontrou um novo ódio de estimação: “os críticos”, assim genericamente, que desprezariam “os filmes de que o público gosta”, argumento mais que velho, senil mesmo. Mas é próprio do “futebolês” que de A.P.V. é expoente – afinal ele até publicou um livro de título Porque é que as Mulheres não Gostam de Futebol?, que não é por certo de homenagem a O Desporto Favorito dos Homens de Howard Hawks -, e da sua imbecilização facciosa e militante do discurso, ter que encontrar, mais que um adversário, um “inimigo”. Eis pois a grande guerra, ou o grande campeonato, “A.P.V. vs críticos”.
 
E se isto sugere o própriamente sujeito do discurso, no caso tornado ventríloquo, que sai da pena do “dummy” Rui Moreira? “Sugiro ao leitor que dedique umas horas a ver Call Girl, um bom filme de entretenimento, na linha dos que A.P.V. sempre realizou. Recomendo-lhe que, se gosta de cinema português, ignore os críticos que invariavelmente desdenham os raros filmes que vale a pena ver e, já agora, que evite aqueles que recebem muitas estrelas da crítica: mais do que os espectadores que conseguem arrebanhar”.
 
O populismo em todas as suas manifestações, do “poujadismo” a diversos discursos “anti-sistema” de que a mais notória expressão em Portugal foi “O Independente”, é isto mesmo: o apelo às “massas”, aos “descamisados”, aos “anónimos”, contra o suposto “establishment” e os intelectuais também, um “establishment crítico” no caso, o qual todavia até está pouco mais que reduzido à insignificância das “estrelas” e “estrelhinhas”.
 
Se calhar, mais cedo ou mais tarde, tinha mesmo de se produzir uma insalubre mistura directa do “futebolês” e do cinema. O apelo que transpira do panfleto de Rui Moreira, fruto de todo o discurso de “vitimização” e de hostilização que se tornou sistemático em António-Pedro Vasconcelos, nada tem a ver com qualquer análise concreta sobre o estado actual da crítica de cinema em Portugal ou da crítica em geral – é, insisto, um exemplo grave do mais rasca e inflamado populismo, e é nesses termos de gravidade que não pode ser ignorado.
 

Cinema, críticos, futebol e "call boys" - I

 

“Corrupção” 

 

 

Os ajustamentos dos jornais portugueses aos imperativos do “marketing” para fazer face à tendência de queda têm continuadamente suscitado, entre várias consequências, uma acelerada depreciação da crítica. Sem dúvida que a desvalorização da mediação crítica é mais geral, que há mesmo uma transformação social da função crítica, cada vez menos um exercício fundamentado de mediação e cada vez mais um mero processo de intermediação na cadeia de consumos. Daí que, como agravadamente se verifica na crise ainda mais aguda da imprensa em Portugal, o que o “marketing” dos jornais ainda assim não dispensa são as críticas de pop e de cinema, ou mais exactamente as “estrelinhas” atribuídas pelos críticos de pop e de cinema, que é fundamentalmente isso que tem valor de uso no processo de intermediação na cadeia de consumos.

 
Falemos então de cinema ou mais exactamente de “filmes”. Se bem que o sistema industrial do cinema americano, do que designamos por “Hollywood”, esteja em agudo estado interrogativo, como os números do “box-office” dos últimos três anos demonstram sem margem para dúvidas, a sua dominação não cessa de se expandir, com um único outro sistema produtivo, o da designada “Bollywood” indiana, a fazer ainda face.
 
Assim sendo, as entidades reconhecíveis que foram os “cinema nacionais” perderam também o seu relevo quando não foram mesmo condenadas à irrelevância: o “cinema francês” – ainda assim, o único distintitivo que existe a nível europeu – perdeu a maioria da quota do seu mercado nacional, o “cinema italiano”, que tão importante foi, ronda os 20% do mercado e enquanto sistema de produção já não exporta, etc, etc. O caso de Portugal então, é o de uma autêntica colónia americana, aliás com níveis de subserviência de discurso verdadeiramente alucinantes.
 
Não vale a pena estar agora a insistir ainda na absoluta falta de dimensão do mercado interno para produzir, já não digo sequer uma indústria, mas um fluxo continuado de produção independente de apoios públicos. Certo é que o “cinema português”, os discursos do “cinema português”, são um psicodrama recorrente. E esse é agora um primeiro ponto a atender.
 
O segundo é a paradoxal situação da dita “crítica de cinema”, sector que pelas razões apontadas ainda é simbolicamente reconhecido, mas se tornou também, no jogo a que ela própria se prestou, um objecto de fustigação, desde logo por parte de jornalistas, note-se - é ler aliás a bloga fácil deles. E sendo o sector crítico com um rasto manifesto no quadro das estrelinhas acaba também por ser afinal aquele em relação ao qual se polariza um larvar populismo anti-intelectual.
 
Acresce no espaço público um terceiro ponto, em que há já muito tempo venho insistindo: a situação extraordinariamente paroxística de, sendo os filmes de produção portuguesa em geral pouco vistos, ou mesmo muito pouco vistos, todavia haver uma série de cineastas que têm um notório estatuto e presença públicas. As coisas sendo o que são, nesse recorrente psicodrama do cinema português há uma exacerbação de discursos que não é apenas muito pouco saudável (tantos e tão notórios são os “ódios de estimação” entre cineastas, ou mais exactamente entre cineastas acima de uma certa idade, que também é necessário fazer notar haver nos modos de discurso público claras diferenças geracionais), é mesmo exasperante – e falo em concreto de realizadores como António-Pedro Vasconcelos, Fonseca e Costa, Fernando Lopes, João Botelho, João Mário Grilo ou Pedro Costa, independentemente do apreço que por alguns deles e pelos seus filmes eu tenha.
 
Mas há um factor particular ainda a salientar. É que no caso de dois dos citados, Vasconcelos e Botelho, as suas intervenções são características dessa redução que João Lopes designou por “futebolês”, a terrível contaminação do espaço público pelo discurso do facciosismo clubista, sendo mesmo ambos notórios benfiquistas e comentadores de futebol também.
 
Entenda-se: não é o futebol nem sequer em abstracto as paixões que suscita que estão em causa – deixemos isso ao complexo de superioridade e ao desejo “big brotheriano” de vigilância do espaço público do hirsuto profeta Pacheco Pereira. Recordo tão só a propósito o que tive ocasião de dizer a propósito de Zidane: un portrait du XXIéme siècle de Douglas Gordon e Philippe Parreno, que “convém não subestimar a inteligência da minoria que ainda gosta de ver cinema nem a da minoria que gosta da arte do futebol sem que seja parasitada por comentários". O que está em causa sim é a dominação dos espaços informativos, a omnipresença de um discurso excedentário e terrivelmente empobrecedor.
 
Em todo este quadro se calhar, mais cedo ou mais tarde, tinha de se produzir uma insalubre mistura directa do futebol e do cinema. Pois aí está.
 
Primeiro foi Corrupção, e todo o seu mediático e atribulado processo. Independentemente de se aguardar a estreia também da versão do próprio realizador, João Botelho, é da ordem das evidências que todo o processo do livro Eu, Carolina foi monitorizado pela jornalista - e co-argumentista do filme do marido – Leonor Pinhão, que foi por essa via que o livro foi parar à Dom Quixote e em concreto à sua responsável editorial Tereza Coelho, supostamente votada sim a António Lobo Antunes, com a qual Pinhão trabalhou durante anos na revista “Os Meus Livros”.
 
Será uma ambição tão legítima como qualquer outra que Botelho um dia também quisesse fazer o seu filme para o dito “terceiro anel”, para a claque benfiquista, e sendo ainda de respeitar, até prova em contrário, que mais uma vez ele quis fazer “um filme sobre Portugal” na continuidade de outros anteriores, não menos há que assinalar que o austero Botelho, ideólogo do “cinema português” como espaço de “resistência” aos malefícios do terrível “imperalismo americano”, se deixou alucinar, ele também afinal, pela perspectiva de fazer um filme de “grande público” : “se o livro vendeu 150.00 quero que o meu filme tenha o triplo dos espectadores”, afirmou durante a rodagem ao jornal “patrocinador”, o “Correio da Manhã” – note-se bem, o “Correio da Manhã”, o tablóide, “patrocinador” de um filme do puritano Botelho!
 
E eis agora, depois da história de alterne, a Call Girl de António-Pedro Vasconcelos, o ex-godardiano “attitré” do cinema português. E com ele, o panfleto rasca do distinto Presidente da Associação Comercial do Porto e colunista do “Público” Rui Moreira, mais prosaicamente comparsa de Vasconcelos no “Trio de Ataque” da RTP-N, outro desses infectos programas de suposto debate de futebol que demonstram bem como o legado do populismo de Emídio Rangel na SIC – matriz destes programas – e do anti-intelectualismo do “Independente” se espalharam duradouramente na imprensa e no espaço público.

Os ocasos da Cultura

A reposição de E.T., há uns meses [no inicío do Verão de 2002], suscitou alguns “flash-backs” sobre o “dossier” que o “Expresso — A Revista” lhe tinha dedicado, aquando da estreia em Portugal, em Dezembro de 1982 [fora a primeira vez que um filme tinha sido capa de uma publicação generalista]. Ao que entendi, os comentários e referências feitos agora em diversas publicações indicavam atitudes de alguma nostalgia, nuns casos, de alguma incredibilidade, noutros: esse “dossier” poderia parecer, visto hoje, ser ele próprio um “e.t.”, pelo seu manifesto desajustamento com o panorama actual da cobertura cultural da actualidade na informação escrita: o que então se fez era de todo impossível de aproximadamente se repetir agora.
 
Fui parte dessa história e não o posso iludir — e também nesta coluna [então “Mediatismos”] nunca se pretenderam insinuar análises clinicamente feitas, abstractas de uma experiência pessoal que antes tem estado repetida e explicitamente implicada. Porventura, este preciso campo das mediações jornalísticas-culturais será até aquele em que mais indissociavelmente sou em simultâneo observador e participante. Mas essa não é razão para considerações sobre ele serem indefinidamente adiadas.
 
O que se passou a partir de 1981 foi obviamente uma conjugação de vontades individuais, a começar por quem era o editor da “Revista”, Vicente Jorge Silva, mas não podendo ser esquecido que o sinal verde veio do então director do “Expresso”, Marcelo Rebelo de Sousa. Talvez hoje se possa observar melhor, considerando as personalidades, que foi também o facto de o primeiro caderno estar tão politicamente vocacionado que permitiu um outro tipo de abordagens, não estritamente culturais mas que certamente de forte matriz cultural, na abordagem reflexiva da actualidade. E, depois, o estilo da “Revista” estava no ar do tempo, de um certo “culto cultural” mesmo, até de uma estetização do quotidiano, na qual, pelos menos nos primeiros anos, se fazia sentir a ressaca do “tudo político” de 1974/75 — e este quadro, que tem de ser atendido, não é propício a exercícios meramente nostálgicos.
 
Em 1989, quando o núcleo da “Revista” saiu (saímos) para fundar o PÚBLICO, a aposta inicial tinha sido largamente lograda, culturalmente mas também economicamente, com a continuada expansão do semanário, que, como os números provam, começou em processo de subida em paralelo à implantação da “Revista”. Em 1989, pensar-se-ia que a experiência mediática-cultural adquirida poderia ter continuidade bifurcada, na “Revista” que permanecia no “Expresso” e no PÚBLICO, que ousava também ensaiar numa articulação de actualidade diária e suplementos semanais, um legado que afinal estivera na base da sua própria contratualização. Uma e outra expectativa desvaneceram-se.
 
A revista do “Expresso” deixou há muito de ser, vagamente sequer, uma referência cultural. O que é entendido como “cultura”, os objectos de “cultura culta” se quisermos, estão num “ghetto” virtual, arrumados no “Cartaz”, que aliás com a sua actual fórmula está prestes a deixar de existir — donde se arrumará definitivamente o rasto de qualquer espectro [é o “Actual”, tal como ora existe]. De facto, não deixa de haver uma certa ideia cultural subjacente a essa mostra social do “Expresso” que é o caderno “Vidas”. E esse, aí, “é o que está a dar”...
 
No respeitante ao PÚBLICO, é de recordar que os suplementos foram dos primeiros a ser afectados, quando se tornou óbvio um sobredimensionamento do projecto (no qual, obviamente, tenho uma quota-parte de responsabilidades). Iniciada faz agora dois anos, a actual “arrumação” com os suplementos Y e Mil Folhas não é apenas mais uma das várias que se foram sucedendo. A ela está subjacente uma superação da matriz original, curiosamente retomando no entanto uma outra mais tradicional, aquela mesma que a experiência do “Expresso — A Revista” nos anos 80 tinha suscitado a ilusão de ter sido superada: uma diferenciada vocação da “cultura de massas” no Y e da “cultura de elites”, sobretudo de fortes marcas literárias, no Mil Folhas. Será a “ordem natural das coisas”?
 
Acontece que se as críticas terão de ser consideradas, até por razões de ordem prática, senão um campo à parte, pelo menos como tendo delimitações específicas, o espartilhar de diferentes perspectivas culturais pode conduzir a um alheamento das próprias capacidades críticas no tratamento da actualidade. É o que sucede. Dois exemplos apenas: já estamos no terceiro sucessivo ministro da Cultura [Sasportes, Santos Silva, Roseta] sem haver um único comentário editorial por parte deste jornal; salvo erro, no decorrer deste ano houve apenas dois “dossiers” culturais que foram destaque do jornal. A secundarização é patente.
 
É pequeno o passo entre a remissão à secundariedade e o alheamento, com o qual o tratamento dos acontecimentos é susceptível de entrar num sistema de auto-reprodução que acaba por equivaler à irresponsabilização. Eis dois exemplos em que atentei como leitor do jornal e frequentador de actos culturais por aquele abordados.
 
Como é possível que, no recente festival de documentário ocorrido em Lisboa no Centro Cultural de Belém, o jornal não tenha minimamente relatado o modo como aquele correu na prática? E entende o PÚBLICO que a escrita sobre filmes já dispensa vê-los no espaço em que são apresentados, as salas de projecção e no caso um festival? Como é possível que ao ler as notas de programa de um concerto tenha até verificado, como certamente outros espectadores, que esse texto e a apresentação do mesmo concerto no PÚBLICO sejam afinal um e o mesmo texto, com a mesma assinatura?
 
“Público”, 20-09-02
 
Republico  agora este texto, que explicitava um itinerário também  pessoal, embora não só, como ponto de partida para retomar a análise da depreciação da opinião cultural e sobretudo das práticas críticas no espaço em que elas eram supostas ter relevo, a dita “imprensa de referência” em Portugal.